02/06/2014

Imora - 4º Capítulo


4º Capitulo

  Savitar encontrava-se estendido sobre a cama, o dia tinha sido igual a tantos outros, mas sentia-se particularmente inquieto.
  Deitado de costas, tinha uma visão privilegiada, em vez do habitual tecto branco, havia um enorme vidro, como uma janela para o céu estrelado lá fora.
  Ele precisava desta ligação com o exterior, estava-lhe no sangue e ter a oportunidade de adormecer banhado pela luz do luar e acordar com os raios matinais do sol, era uma bênção que ele não prescindia por nada neste mundo.
  Poucos eram aqueles que compreendiam o porquê de ele ser um homem ligado ao mar e à areia da sua ilha, pois poucos eram os que conheciam a sua verdadeira história.
  Rodando sobre si, esticou o braço para alcançar uma caixa de madeira preta, que se encontrava pousada na sua mesinha de cabeceira, um dos poucos móveis que compunham a decoração do quarto.
  Abrindo com todo o cuidado, retirou de lá de dentro um medalhão todo ele trabalhado, com o formato de um dragão ao redor de uma pedra negra. Passando os dedos pelo metal, sentiu-o aquecer ligeiramente e essa sensação transportou a sua mente à primeira noite em que ouviu falar dele.


“27969 a.C Lemúria

  Faltavam algumas noites para Savitar se iniciar no treino, todos os filhos varões ao completarem os oito anos de idade, iam para um acampamento de treino, onde eram iniciados na arte da guerra, a sobrevivência e a garra de cada uma das crianças era testada até ao limite, se sobrevivessem aos anos de treino, seriam considerados guerreiros aos quinze anos.
    Na sua phyle este ano, havia um grande número de varões e como era tradição, faziam um ritual de despedida/iniciação.
    Homens, mulheres e crianças, juntavam-se em volta de grandes fogueiras, sob a luz da lua e os varões escolhidos tinham um lugar reservado na fogueira do velho ancião.
  Seguindo os costumes, o ancião verificava cada um dos varões para se certificar que nenhum deles tinha defeito físico, pois eram necessários guerreiros hábeis para as batalhas, completa a revisão, o ancião oferecia a cada um que fosse aprovado uma bracelete de couro, com o brasão da tribo, pois era uma maneira pela qual seriam identificados no acampamento.
  Após este primeiro teste, cada rapaz ocupava o seu lugar em volta da fogueira e tal como o resto da tribo a comida circulava por entre todos, porém o silêncio mantinha-se à frente daquele fogo, o respeito pelo velho e a expectativa pelo que estava para vir, consumiam os jovens.
  O que mais preocupava Savitar era deixar a sua mãe para trás, ela não tinha mais ninguém, mesmo na sua tenra idade, já tinha visto muito da crueldade do povo, para saber que uma mulher sozinha, era uma presa fácil, bem, não é que a sua desengonçada constituição física, pudesse fornecer qualquer tipo de protecção à sua mãe, mas ao menos, enquanto ele estava a seu lado, ela não estaria sozinha.
  Nunca tinha conhecido o seu pai, uns diziam que ele morreu na guerra, que desde sempre existiu entre os reinos de Lemuriah, mas sempre que perguntava à sua mãe sobre ele, Anyah negava-se a responder e o mistério envolvia cada traço do seu fino rosto delicado.
  Remexendo-se no tronco que tinha como assento, tentava arranjar uma posição que lhe pudesse transmitir alguma serenidade, pois aquele silêncio era torturante, mesmo ouvindo as vozes, risos e grunhidos como pano de fundo, dos outros grupos que ocupavam a grande praia, ele sentia-se sufocado ao lado dos outros rapazes, que na sua maioria estavam pálidos, isto era sem dúvida consequência dos rumores que ouviam sobre o que se passava no acampamento, para o qual iriam ter como morada nos anos seguintes.
  Savitar concentrou-se a observar o velho que se sentava exactamente à sua frente, o ancião trajava um longo manto vermelho sangue, adornado com faixas negras nas extremidades, nelas podiam-se ver escritos antigos, bordados a ouro, nos longos e envelhecidos dedos, encontravam-se vários anéis que combinavam com a cor do traje.
Como sentindo o peso do olhar, o ancião encarou directamente Savitar e aclarando a voz, começou o seu discurso, num tom áspero e entre cortado.
- Reza a lenda que Lemuriah foi fundada por cinco dragões, estas cinco divindades foram as responsáveis por tudo o que podemos usufruir nos dias que correm. Como sabem o nosso continente é dividido em cinco territórios, em cada um se idolatra uma divindade diferente. Daronath, o grande dragão do fogo é a divindade regente de Mormon.
  Ergueu a mão e as labaredas da fogueira que estava á nossa frente aumentaram com uma fúria tão grande que subiram ferozmente em direcção aos céus, subiram tão alto que pareceu a Savitar que as chamas tocaram as estrelas, tal era a força e a energia do fogo.
- Ele governa a cadeia montanhosa que vocês podem ver ali adiante, agraciou aos moradores do seu reino, terras férteis e a estes nunca falta alimento, porém quando Daronath se ofende, a sua ira é expressa pelos rios de lava e nada, nem ninguém é poupado.
 As chamas crepitavam e pareciam iluminar as montanhas, das quais o ancião tinha referido. O grupo de rapazes, estava temeroso e ao mesmo tempo surpreso com as demonstrações de magia. Poucos eram os escolhidos pelas divindades, para darem uso a tal dom. Com um estalar daqueles dedos enfeitados de grandes pedras ornamentadas, uma chuva intensa caiu sobre a fogueira, diminuindo, mas não extinguindo o fogo. As grossas gotas apenas caiam naquele lugar, era algo fascinante de se presenciar.
- Drokth, o dragão que representa a água, é a identidade do nosso reino, Lehi, governa todos os rios, mares, o longo oceano que nos rodeia e também se manifesta perante nós desta forma, a sua benção refresca as nossas terras, animais, corpo e alma.
  As gotas de água, solidificaram subitamente, como que congeladas e começaram a pairar no ar, uma exclamação de apreciação fez-se ouvir vinda dos rapazes.
- Draenth, o dragão a quem pertence o elemento do ar, tem como seu território é conhecido por Enos, comunica connosco através do vento mais feroz até há brisa mais suave, mas tal como os restantes, quando enfurecido, as suas forças podem arrancar as árvores mais altas pela raiz e numa destruição tal arrasar com tudo o que conhecemos.
  Com um barulho ensurdecedor, uma onda de poeira explodiu dentro da fogueira, assustando toda a audiência, pela maneira imprevista que tudo aconteceu.
- Derath, o dragão da terra é quem nos proporciona a flor mais pequena, o solo que pisamos, as árvores que nos rodeiam e tudo o que é belo á vista. Nephi é o reino mais encantador, foi abençoado pela beleza das flores e das diversas florestas que são compostas por uma variedade de flora. Tudo isso lhe pertence.
  Dito isto movimentou a mão, girando-a e á sua frente formou-se um circulo, dividido em quatro, pelo fogo brilhavam as chamas, num vermelho vivo; pela água, num azul translúcido as gotas da chuva moviam-se num redemoinho; pelo ar, num branco brilhante era possível ver a movimentação do ar e pela terra a poeira girou sobre si, com fios verdes e castanhos.
  Esse anel mágico, mostrou a todos a sincronia perfeita dos quatro elementos, aquela visão transmitia uma calma a todos os que olhavam ao aro que flutuava por cima do que até então, tinha sido uma fogueira, agora extinta, mas com aquela iluminação colorida, não era necessário reacender as fagulhas e troncos.
- Vejam como os elementos estão em sintonia, assim foi no inicio dos tempos, os quatro dragões governaram em paz. Porém o pior aconteceu. Duroth, o dragão elemental e detentor do espirito e capaz de controlar os outros quatro elementos, não concordava com o rumo que Lemuriah levava. Nem se contentava com o facto de poder reinar livremente no seu território, Lazarus. Duroth era ambicioso e há quem diga que ele é o detentor de todos os males conhecidos.
  Um pesar preencheu os olhos do velho ancião enquanto este, olhava para o anel luminoso, uma forma incorpórea, mais parecida com uma sombra escura e negra, rodeou o aro, oprimindo e sugando toda a energia, cor e vitalidade dos elementos. A sua força malévola era tal, que destruiu o anel e reduziu-o a cinzas negras, que caíram lentamente em cima dos troncos queimados da fogueira.
  No escuro a voz do ancião fez-se ouvir novamente e as chamas reluziram de novo na fogueira, voltando ao estado inicial, aquando tinha começado a contar a lenda.
- Quando Lemuriah foi criada, os cincos dragões queriam ter o seu território, para poderem ai, dar continuidade á sua natureza e força divina. Então Lemuriah, foi dividida em cinco reinos e cada um foi governado por uma divindade. Inicialmente tudo corria bem e o nosso continente prosperava, mas a ameaça eminente das outras civilizações e principalmente dos panteões divinos das terras além oceano, fizeram com que os dragões se reunissem e decidissem qual o melhor rumo a tomar, pois quer os Gregos como os Atlantes, eram superiores em número e possivelmente em força, era este ponto em particular que Duroth não tolerava, enquanto os quatro restantes, debatiam entre si conceber para cada reino um herói, que seria dotado de poderes divinos para lutar pelo seu povo. O elemental era da opinião que em vez de um, deveria ser criado um exercito capaz de destruir qualquer inimigo estrangeiro. Temerosos com estas ideias e sede de poder, os quatro dragões viram-se obrigados a encerrar Duroth, só assim conseguiriam manter a paz e o equilíbrio em Lemuriah, pois caso os estrangeiros vissem Lemuriah como ameaça, iriam empenhar-se em destruí-la e o caos iria reinar. Diz-se que Duroth foi preso num medalhão e outros ainda acrescentam que as suas últimas palavras foram “Vocês os quatro são uns traidores, podem deter o meu corpo, mas o meu espirito será libertado, no dia que o meu herdeiro se apoderar do amuleto negro e quando isso acontecer, vão-se arrepender do que me fizeram!”
  O pequeno grupo ofegou e engoliu em seco ao ouvir este relato, não se contendo Savitar teve que intervir.
- O que contas é verdade?
- Jovem, como te atreves? Achas que iria contar uma mentira, para que a ira divina se abatesse perante mim?
- Não, mas como Duroth foi preso? Onde está esse medalhão?
- Fazes demasiadas perguntas rapaz insolente. Ninguém sabe ao certo onde se encontra o medalhão negro, mas acredito que possivelmente se encontre no Templo Elemental em Lazarus. Mas poucos são aqueles que ousam aventurar-se por esse reino maldito, o mal rejubila em cada grão de areia e em cada pedra.
- E quanto ao herdeiro?
- Savitar, Lemuriah foi criada à muito tempo e até hoje, nunca houve ninguém que reclamasse ser o herdeiro elemental, por isso, pode ter sido apenas palavras ditas ao acaso. Acabaram as perguntas impertinentes.  Agora vão e aproveitem o resto da noite, pois amanhã, vão ter um longo caminho pela frente.”


Aquela lembrança permanecia tão fresca na mente de Savitar, como se tivesse sido na noite anterior, foi essa lenda que o fez aguentar os anos seguintes no campo de treino.

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