02/06/2014

Imora - 3º Capítulo


3º Capítulo

Stryker encontrava-se no seu trono, no salão principal de Kalosis, do qual rosnava ordens aos seus soldados deamons. Mergulhado em pensamentos a fim de descobrir uma nova táctica para derrubar Acheron, foi assaltado por uma onda de tristeza, algo não estava bem e não demorou muito a aperceber-se de onde vinha tanta inquietude.
Levantou-se de imediato e foi ao encontro de Apollymi, ela sofria e apesar de todo o rancor guardado por ela preferir Acheron a ele, Stryker não conseguia ignorar tal sofrimento.
Encontro-a com a cara enterrada nas delicadas mãos e estava num pranto tal que até soluçava.
- Que se passa Matisera?
Apollymi que se encontrava distraída no seu desespero, nem deu pela entrada de Stryker no seu jardim, ao ouvir a sua pergunta, limpou rapidamente as lágrimas que lhe corriam pela cara e adoptou uma expressão impenetrável.
- Não se passa nada Strykerius, porque estás aqui?
- Senti a tua dor e tive que vir até ti.
- Para rejubilares perante a minha desgraça?
Ao ouvir tal resposta Stryker ficou petrificado.
- Nós temos as nossas divergências e assuntos pendentes, mas tal o teu sofrimento não é alegria para mim, não precisas de me atacar!
- Que esperas tu que eu faça? Quando passas o teu tempo a engendrar planos mirabolantes para acabar com a vida de Apostolos?
- É legitimo pensares assim, mas tu não consegues perceber porque faço tudo isso?
Apollymi levantou-se e começou a caminhar de um lado para o outro tentando meter os seus pensamentos em ordem. Mas será que todos tiraram o dia para a virem incomodar com assuntos que a afectavam? Teria que tomar uma atitude, respirou fundo e respondeu.
- Strykerius temos que falar muito seriamente sobre a nossa relação.
- Que queres dizer com isso?
- Desde que o imbecil do teu pai lançou a maldição sobre todos os Apollites, eu adoptei-te, fiz de ti o meu filho...
- Só o fizeste para compensar a perda do Acheron. - interrompeu Stryker secamente.
- Sim, inicialmente fi-lo e para me vingar do teu pai, mas isso tu já sabes. A questão é que eu sou a deusa da destruição, desconheço muitos dos sentimentos que vinculam famílias, mas com o passar dos anos, comecei a nutrir por ti um amor idêntico ao que se
tem por um filho, assisti aos teus filhos crescerem, acompanhei as tuas perdas e sofri por ti.
- Tretas...
- Não me interrompas! E não, não são tretas, vê isto.
Levantando a manga do seu vestido preto, Apollymi mostrou-lhe o seu braço, onde estavam onze lágrimas pretas, um costume antigo em que cada lágrima é sinónimo de uma perda de um ente querido, Stryker olhou para as tatuagens e encarou a deusa que sempre amou como mãe, com um olhar confuso.
- Que significa isto?
- A lágrima maior, simboliza Apostolos e as restantes dez lágrimas são os filhos que perdeste.
- Como queres que eu acredite nesta tua compaixão se tu mesma, mandaste-me matar o meu filho Urian?
- Nunca disse para o matares Strykerius, apenas te disse que ele escondia algo de ti, a decisão de o matar partiu de ti, foste tu quem lhe cortou a garganta, cego pela traição.
Ao ouvir tais palavras, foi a vez de Stryker deixar escapar vestígios das suas emoções, que ele a todo o custo tentava esconder de tudo e de todos, mas a dor que Apollymi sentia e a sua própria dor, foram demasiado para ele.
- Como me arrependo disso...
Apollymi aproximou-se dele e abraçou-o. Foi o suficiente para Stryker ceder ao peso que carregava dentro de si e que só permitia consumi-lo quando se encontrava sozinho.
- Eu sei disso m'gios, compreendo perfeitamente a tua dor, não precisas de te conter comigo, estou aqui.
A afeição nas suas palavras, fez com que ele a olha-se nos olhos e para seu espanto neles encontrou o que tinha sempre pedido, o seu amor.
- Porque não foste sempre assim comigo?
- Fui egoísta, só pensava no que eu queria e no bem de Apostolos e isso cegou-me para o que poderia te estar a fazer.
- Eu sempre te quis ter como minha mãe... - as palavras falhavam-lhe.
- Strykerius, porque não me disseste o que pensavas e sentias desde o inicio? Isso poderia ter evitado uma série de coisas.
- Bem quis, mas o ciúme de saber que nunca me irias amar como o fazes com Acheron levou-me a cometer loucuras. Tu nunca disseste o meu nome com sentimento, sempre houve frieza nos teus actos, nas tuas ordens e exigências, usaste-me para atacar o meu pai, para tentares sair daqui e principalmente, para ser o suposto substituto de Acheron, mas sempre que olhavas para mim, via a desilusão nos teus olhos.
A deusa conseguia compreender o que Stryker dizia, queria começar de novo com ele, dar-lhe a atenção que sabia que lá no fundo ele merecia e precisava, mas a sua natureza destrutiva ateimava para o afastar, por todo o mal que ele tinha feito.
Ficou calada por momentos a pensar o que deveria fazer, vê-lo nos seus braços fragilizado e assumir tudo o que tinha guardado durante aqueles onze mil anos.
- Que te parece se começar-mos de novo? Sei que já lá vão muitos milénios, que não podemos mudar o nosso passado, mas podemos criar um futuro diferente, melhor para nós os dois e para todos os que nos rodeiam.
Stryker não conseguiu esconder a sua surpresa, no fundo era precisamente isto que ele queria, ter uma hipótese com a única mulher a quem poderia chamar de mãe, mas os seus actos no passado pesavam-lhe na consciência.
- Mas eu fiz tanto mal...
- Fizeste sim, tal como eu, mas isso é passado. - respondeu Apollymi sorrindo.
Dito isto, abraçaram-se e desta vez foi um acto cheio de sentimento, que os libertou do peso que carregavam.
- Agora vais-me contar porque choravas Matisera?
O peso da dúvida no olhar dela magoou-o, mas era compreensível, não podia pedir dois milagres no mesmo dia. O primeiro foi que finalmente davam um passo para o entendimento, temia apenas que aquela pergunta dita à pressa fosse deitar tudo a perder,
porém a resposta de Apollymi surpreendeu-o.
- O Savitar esteve aqui e tocou em assuntos que eu pensava ter enterrado à muito.
- Queres-me contar que assuntos são esses?
Savitar andava a insistir para que a verdade se soubesse e ela temia que mais tarde ou
mais cedo isso inevitavelmente viria a acontecer, portanto o receio que Stryker pudesse
contar a alguém, era a modos que infundado, pois conhecia-o e ele dava valor à sua honra, rogando à mesma e com base no novo começo, decidiu dar-lhe o beneficio da dúvida e começou a contar-lhe tudo.
- Pelo que já pudeste assistir nas raras ocasiões que te deparaste com Savitar em Kalosis, eu e ele sempre mantivemos uma certa distância um com o outro. Mas nem sempre foi assim, conheci-o há muitos anos, ainda existia o continente da Lemúria, sim esse
mesmo, não precisas ficar tão espantado, sei que muitos pensam que a sua existência é apenas um mito, mas enganam-se. Parece que foi noutra vida, nessa altura sentia-me livre e feliz, quando o conheci não
consegui afastar-me mais dele, ele tinha um espírito de guerreiro, como uma força que me atraia até ele, o seu carácter orgulhoso e misterioso fascinaram-me.
Soube desde logo que ele iria mudar a minha vida, porém não imaginava que traria tantas repercussões.
Apollymi olhou em volta pelo seu jardim, fixando-se na sua fonte, mas o seu olhar era distante, como se tivesse perdida em pensamentos...
- Há muito tempo atrás, quando o continente perdido de Lemúria ainda fazia parte deste mundo, conheci um homem que me cativou pelo seu carácter forte e misterioso, fascinou-me de tal modo, que sempre que estava com ele, esquecia-me de quem e o que eu era e sentia-me muito feliz. A seu lado eu conseguia ser normal, ele próprio tratava-me com tanta normalidade que por vezes até o meu lado de deusa se sentia ofendido com tanta obstinação.
Stryker ouvia atentamente e ficou surpreso com o ar de fascinação que transparecia no seu olhar prateado, não conhecia esse lado de sua mãe, falando com tanta paixão e nostalgia. Nunca em toda a sua existência imaginou que entre ela e Savitar pudesse ter havido algo do género, sempre os conhecera como cão e gato, quando estavam na presença um do outro, o ar ficava carregado de ódio e as palavras trocadas eram curtas e amargas. Permaneceu atento e em silêncio, pois queria conhecer a história e
principalmente, queria conhecê-la a ela.
- Foi um tempo em que a mulher em mim viveu para um homem, mas a paga por tal sentimento de querer ser normal e acreditar cegamente nele, foi alta.
Desde o momento em que ele me traiu, que nada mais foi o mesmo, parte de mim morreu naquele dia...
Neste momento ela parou o seu relato e uma lágrima rolou na sua face, Stryker aproximou-se e limpou-a numa caricia, incitando-a a continuar o relato.
O tempo passou e Stryker viu muitas das suas dúvidas serem esclarecidas, mas também a sua incredibilidade cresceu, não conseguia acreditar no que Savitar lhe tinha feito e uma parte de si, achava que existia ali um grande mal entendido e que tal facto só trouxe sofrimento à sua mãe.
Apollymi encontrava-se perdida numa maré de sentimentos, porém, no meio de tanta tristeza que a história do seu passado trazia ao de cima, conseguiu sentir alivio, por finalmente ter falado no assunto em voz alta.
Stryker era um bom ouvinte e isso surpreendi-a,escutou-a até ao fim e voltou a abraçá-la.
- Não te irei desiludir Matisera, estarei aqui para te ouvir sempre que precisares.
Após uma despedida emotiva, Stryker deixou Apollymi no seu jardim. Tinha muito em que pensar e uma súbita arrogância tomou conta de si, Acheron não ia gostar nada da história e pior que isso, ele seria o último a saber, mas espantou esse pensamento, pois se queria estar bem com a mãe, teria que aceitar Acheron...
Mas isso era uma tarefa mais complicada de meter em prática.

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