02/06/2014

Imora - 2º Capítulo


2º Capitulo

Savitar materializou-se no salão principal do seu palácio, local onde o conselho do Omegrion se reunia para debater o mundo dos WereHunters, ou melhor, onde ele ficava a ouvir as queixas daquele bando de idiotas que só faziam merda e esperavam que ele resolvesse tudo.
Sinceramente havia dias que só lhe apetecia extinguir os animais todos da face da terra com um estalar de dedos e assim grande parte dos seus problemas ficariam resolvidos.
Mas o grande problema que o assolava neste momento, não teria uma resolução assim tão simples, magoava-o profundamente ver Apollymi sofrer, mas começava a perder a esperança, ela não o deixava aproximar, mantinha uma barreira entre eles e Savitar teria que arranjar uma maneira de deitar aquela barreira abaixo e voltar a estar próximo da única mulher que ele amou em toda a sua vida.
Tentando organizar os seus pensamentos, sentou-se no seu trono, do qual normalmente costumava assistir ao lavar de roupa suja e queixumes dos líderes Katagari e Arcadianos.
Sentia que aos poucos começava a perder o controlo das suas emoções e não se podia dar ao luxo que tal coisa acontecesse, todos o conheciam por ser um filho da puta desprovido de coração e nem mesmo Acheron que o conhecia há mais de onze mil anos, tinha conhecimento de algum lado emocional da sua parte.
Era assim que pretendia que as coisas continuassem, mas Apollymi tinha o dom de trazer à superfície tudo o que ele escondia no mais profundo do seu âmago. Mergulhado em pensamentos, deixou-se levar pelas memórias e uma em particular ganhou vida diante dos seus olhos, a primeira vez que viu a deusa...

"27987 a.C., Lemúria
Nesse dia tinham acabado de saquear uma phyle (1) perto do grande bosque, tinha sido uma brilhante vitória, as baixas da sua tribo, os Vorathios (2) tinham sido mínimas e conseguiram um bom número de escravos para venderem. Para além disso, a localização não poderia ser melhor, iriam conseguir alimento quer no bosque, quer no rio de águas de um azul cristalino que corria ali perto e poderiam
instalar-se naquele local por alguns dias, até seguirem viagem.
O ancião dos Vorathios tinha dito que aquele bosque era perigoso, não se referia a males que ferem fisicamente, mas sim a males que penetravam a cabeça dos homens, levando-os a uma loucura tal que nem os Quatro Dragões (3) poderiam ajudar. O ancião contava histórias de homens que eram consumidos pelos poderes ocultos e que nunca mais tinham voltado ao normal.
Savitar nunca tinha acreditado em tais histórias, só acreditava no que via e sentia, o resto eram tal como o que o nome indica, histórias. Não temia nada, nem ninguém, era um guerreiro temido e respeitado por todos os do seu povo.
O seu amargo passado assombrava-o e ele usava essa ira nas batalhas que combatia pelos Vorathios.
Não conseguia partilhar a mesma devoção que os seus irmãos tinham pelos Quatro Dragões, para ele, estes estavam mortos, tal como quem eles tinham deixado morrer no seu passado.
Depois de estabelecerem abrigos perto do bosque para pernoitarem, Savitar foi em busca de alimento, pois para além de lutar pelos seus, o dever de um Vorath (4) era fazer de tudo para manter as suas mulheres e crianças alimentadas.
Quando penetrou pelo denso bosque, esperava tudo menos o cenário que se apresentava. Ele era um guerreiro que apenas estava habituado a tudo o que era brutal e bizarro, a sua vida resumia-se a banhos de sangue, tortura, dor, violência e morte. Nada o tinha preparado para aquilo... a luz que conseguia passar pelo denso tecto de ramagens verdes, dava àquele lugar uma toque irreal, o chão estava coberto de uma
camada colorida, composta por variadas flores e plantas que ele nunca tinha visto até então, o cheiro que elas soltavam era inebriante.
Maravilhado e um pouco assustado com aquele cenário desconhecido, embrenhou-se ainda mais por entre as árvores. O som suave do canto dos pássaros era uma melodia agradável, olhou em volta mas não
conseguiu ver nenhuma ave, acompanhado pelo chilrear, continuou a caminhar para o coração do bosque, sem saber bem o que fazer naquele espaço tão imaculado, tentou seguir o trilho de terra batida, para assim evitar estragar algo tão belo.
Parecia que aquele local nunca tinha sido pisado por humanos ou mesmo pelas divindades que compõem as histórias do velho ancião Vorath, Savitar deu por si a dar crédito a Derath (5), este tinha feito um óptimo trabalho em conceder aos Lemurhios (6) tal paraíso.
Chegando perto de uma clareira, onde o estreito trilho do qual seguia, se abria num espaço amplo, o manto que forrava o chão era diferente. Ali as flores eram todas iguais, apenas as duas cores variavam, não conseguindo evitar, aproveitou e sentou-se numa pequena pedra saliente, que se encontrava ali na clareira e fechou os olhos.
Deixando-se levar pela melodia das aves, ficou perdido naquela posição, ao que lhe pareceu uma eternidade, até que o som de galhos a estilhaçar se fez ouvir mesmo atrás de si. O seu reflexo foi levantar-se rapidamente e assumir uma posição de ataque, mas ao deparar-se com quem o tinha feito sair do seu êxtase, fê-lo estacar e abrir a boca em espanto.
Á sua frente estava a mais bela mulher que alguma vez vira, o seu coração acelerou ao
percorrer-lhe o corpo com os olhos. Tinha uma pele de tez clara, o seu rosto era desenhado por traços finos e delicados, o seus lábios eram de um rosa pálido bastante convidativos, a ligeira brisa que passeava
pela clareira fazia os seus longos cabelos de um loiro bastante claro dançarem suavemente em volta do seu corpo esbelto, que estava revestido num simples vestido todo ele preto.
Mas foram os seus olhos que lhe cortaram o fôlego, de um cinzento brilhante, faziam-no lembrar a luz da lua, eram como duas fontes de metal puro. Aquela mulher era o oposto de todas as que já vira até então.
Ficaram-se a olhar mutuamente até que numa voz de veludo ela lhe pergunta.
- Quem és tu?
- Isso pergunto eu! - respondeu-lhe ele sob o olhar curioso, sem desviar o olhar ela cruza os braços e faz um ar contrariado.
- Perguntei primeiro! - retorquiu ela com firmeza, decidindo dar o primeiro passo ele cede.
- Chamo-me Savitar, sou da phyle Vorathios e tu quem és?
Ignorando a sua pergunta, ela virou-lhe as costas e dedicou a sua atenção àquelas estranhas flores que decoravam o chão da clareira. A sua atitude irritou-o, quem era aquela mulher para se atrever a não responder a um homem? Mas antes de poder proferir algo, ela diz.
- São lindas não achas? As rosas sempre foram as minhas preferidas.
Então o nome daquilo eram rosas... Ela estava a desviar a conversa, foca-te Savitar, pensou ele.
- Não me respondeste!
- Não sou obrigada a fazê-lo!
- Mas eu respondi!
- Porque quiseste e lá porque o fizeste isso não implica que eu faça o mesmo.
A atitude dela começava a tira-lo do sério, mas ao mesmo tempo encontrou dentro de si um certo divertimento por aquela mulher ousar falar assim com ele, estava habituado a que todas as outras fizessem o que ele mandava sem contestar.
- Quem pensas que és para me estares a desafiar mulher?
- Humano, não me fales nesse tempo!
Aquela resposta trocou-lhe as voltas, que raio... humano?
- Humano? - disse dando voz ao que pensava.
- Sim humano, tu não passas de um mero humano, que tem como hábito que todas as mulheres com quem te cruzas, façam o que queres, quando queres e onde queres. Mas comigo não irás ter essa sorte, eu não sou igual a nenhuma outra que já viste e tão pouco irei ceder às tuas ordens de humano machista!
Não querendo acreditar no que estava a ouvir, a sua raiva começou a ganhar terreno, porque a ousadia daquela mulher estava a ir longe demais. Preferiu dar um passo atrás com intenções de se ir embora, pois não queria fazer nada que se viesse a arrepender caso a raiva tomasse o controlo. Um sentimento agridoce tomou conta de si, por um lado não queria ir embora, pois a sua vontade era ficar e continuar a olhar para aquela mulher, mas por outro se ali permanece-se, poderia vir a quebrar o juramento que fez a si próprio e dar um enxerto de porrada àquela mulher, pela sua obstinação. Ao prepara-se para dar meia volta, viu no olhar dela um vislumbre de tristeza, mas ignoro-o e virou-se.
- Como queiras. - disse preparado para abandonar a clareira, mas antes de conseguir dar um passo, sentiu um toque frio na sua pele, voltou a virar-se e ela olhava-o fixamente.
- Chamo-me Apollymi. - disse num sorriso e desapareceu à sua frente, deixando para trás uma rosa branca.
Confuso com o que acabara de ver, Savitar baixou-se a apanhou a rosa, levou-a ao nariz e inalou o seu doce aroma."

Savitar abanou a cabeça, como que para conseguir afastar tais memórias. Um sorriso desenhou-se subtilmente nos seus lábios, fazendo aparecer um holograma com o rosto de Apollymi, era engraçado, admitia a ele próprio, ela sempre teve aquele feitio e mesmo passado tantos anos, havia coisas que não mudavam...


(1) phyle - tribo
(2) Vorathios - a tribo que Savitar pertence
(3) Quatro Dragões - na Lemuria, em vez de idolatrarem vários ou um deus, eles eram devotos a quatro identidades divinas que representavam a Terra, Fogo, Ar e Agua. Dragão era o animal sagrado na Lemuria e eles achavam que as suas divindades estavam sob essa forma.
(4) Vorath - membro masculino da tribo dos Vorathios.
(5) Derath - um dos quatro dragões, representa a Terra.
(6) Lemurhios - povo que vivia na Lemúria.

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